Pelo ombro

Valmor Bordin, Rosane Goettert, Cristina Moreira
Daniela Langer, Nelson Rego, Emir Ross

Eu levantei. Juro que tentei. Fui até a cozinha e fiz o café da manhã. Barulhenta, esparramei sem cuidados a toalha sobre a mesa da cozinha. Joguei sobre ela, a xícara, a leiteira e o bule de café. Só para mamãe acordar. Mesmo sabendo que ela não acordaria e que eu o tomaria sozinha. Lá fora, o ônibus esperava. A escola esperava.

Por último, coloquei o pão que comprei terça, na minha frente e sentei. Tentei não demorar. Tentei engolir os pedaços do miolo que ia tirando com os dedos e enfiando na boca. Tentei não lembrar dos cafés de antes. Das salsichas quentes, das geléias, dos ovos duros. Das primeiras conversas do dia trocadas na mesa do café com meu irmão e o papai.
A bola de pão crescia em minha boca, por menores que fossem os pedaços. Eu precisava comer. Sabia disso. Precisava de força. Força para tanta coisa… O leite esfriava na xícara. Não me importava, ficava mais fácil de beber. Aliviava a secura da língua, da garganta. Com a boca cheia, olhei para o relógio da parede.

Deixei a louça na pia, junto com as xícaras dos dias anteriores. Não saberia dizer se era aquilo, o desleixo, o esquecimento, que me incomodava mais ou o fato de que eu havia me tornado um fantasma dentro da minha própria casa, um espectro andante, falante, que come, que suja louça, pra depois lavar, pra chegar em casa da aula com boletim pra assinar e tudo isso sem sequer ser notada.
Não bastasse isso, mamãe ultimamente não saia mais do quarto. Deixava a porta entreaberta, as cortinas bloqueando o sol, à noite o abajur com sua luz amarelada empestando o corredor, e a fumaça, rolos e rolos de fumaça durante a noite, e o dia. As únicas palavras que ouvia dela, dia sim dia não, eram pra que trouxesse mais cigarros quando viesse da rua. Não gostava, mas trazia.
Trazia porque assim tinha motivo pra entrar lá, pra olha-la, pra juntar os lenços de papel usados, todas as lágrimas ali contidas já evaporadas, o sal de três dias, pra eu juntar e jogar fora. Nessas horas eu lembrava do papai e o odiava. Odiava por ter ido, por ter sido estúpido, por ter feito tudo o que me dizia pra não fazer (não beber, não dirigir em alta velocidade, não fumar maconha, não cheirar, não me picar, essas coisas de pai), odiava mais ainda por ter sido tão hipócrita, por ter mentido pra mamãe, e por ter levado meu irmão com ele no maldito dia.

Entrei no ônibus, não olhei para o motorista do ônibus, fiquei olhando para a velha que estava na minha frente tentando sentar em um daqueles bancos mais altos. Ela tentava e quase conseguia, o ônibus dava uma freada, ela ia para trás, bufafa, segurava no banco com as rugas em mãos. Entreguei a passagem, a carteirinha escolar, rolei o corpo pela roleta, tudo sem olhar para ninguém. Eu quero dizer assim, olhar no rosto. Porque eu olhava as cinturas, as barrigas flácidas, os cintos apertados, as bainhas puídas. Mas nos olhos não, porque no fundo eu sabia que eram eles todos que para mim olhavam. Deviam tentar adivinhar no meu emagrecimento, nas minhas roupas mal passadas, nas minhas olheiras, o que tinha acontecido lá em casa. Sentei no último banco, na janela. Olhava para a rua.
Foi assim mesmo, olhando para rua que naquele dia cheguei no colégio. Eu podia adivinhar, a última coisa tinha sido o papai pegando meu material, encaixando os cadernos nos meus dedos, segurando meus ombros e apontando para a porta já aberta: tu estás atrasada, Carolina! Eu adivinhei que daquela vez era sério porque ele me chamou pelo nome inteiro. E eu sei que isso é bem clichê, que todos os pais do mundo chamam os seus filhos pelo nome todo quando estão brabos, mas o meu não. Então eu sabia quando entrei no ônibus — e não olhei para ninguém — que quando voltasse não ia encontrar só o resto da briga, provavelmente não encontraria resto nenhum.
Foi a diretora que mandou me chamar na aula. E primeiro eu achei bom, porque era aula de matemática e era um saco a aula de matemática. Mas logo deu aquela dor azeda no estômago e não entedia direito, por mais que soubesse que alguma coisa aconteceria naquele dia, eu não entendia direito porque o papai tinha deixado a mamãe gritando na sala, porque tinha recolhido em um só abraço a mochila do Otávio e o corpo pequeno do Otávio. Porque tinha gritado, “Ana Maria, chega! Vai dar um jeito na vida, que eu levo o guri na creche!”. E a diretora falava, a pedagoga também falava, até a mãe no telefone falou, uma sinaleira, o sinal amarelo, foram levados para o hospital. Mas eu não entendia.

Tive que ir até a janela. Vomitei. Me seguraram pelo ombro.
– Papai? O que faz aqui?

E quanto mais me seguravam, mais papai jorrava por minha boca afora. Caía lá embaixo, esparramado em sete andares. Mas havia muito de pai em mim para sair. Pois toda vez que achavam ter-se acabado, lá vinha papai de novo em tiras verdes de gosto amargo.
Também vomitei Otávio. Mas não senti seu gosto. Nem sua textura. Também não me seguraram pelo ombro desta vez. Foi tudo de forma única. Como o tempo que tivemos juntos.
Não pude vomitar mamãe. Vez nenhuma. Mamãe ainda estou a engolir. Toda manhã quando acordo. Todo almoço quando chego. Toda noite que não durmo. Mas procuro engoli-la de forma branda e leve. Sem esforço ou pressa. Pois sei que, quando chegar a vez de vomitá-la, ninguém segurará meus ombros.

Uma resposta to “Contos Coletivos”

  1. Ana Claudia Says:

    Essa coisa de conto coletivo é muito interessante. E nesse conto muito legal a forma fantástica como acabou. Fiquei agradecimdamente frustrada. Agradecidamente porque achei ótimo ter sido frustrada no que eu havia pensado como final do conto. Meu medo de que acabasse em clichê foi infundado. Parabéns aos contistas. Adorei.

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